Os negócios de impacto podem colaborar para promover uma sociedade mais justa em aliança com o poder público

Os negócios de impacto podem colaborar para promover uma sociedade mais justa em aliança com o poder público

É de conhecimento de todos que tanto o terceiro setor quanto o poder público estão voltados para resolver problemas socioambientais e proporcionar um ambiente mais justo para todos. Entendemos que a convergência desses setores é inerente à missão principal de cada um, e que nenhum deles, sozinho, é capaz de resolver todas as problemáticas existentes. O que cada vez se discute mais é em como os dois setores podem unir forças e executar um trabalho conjunto mais efetivo.

Segundo Graziella Comini, coordenadora Centro de Empreendedorismo Social e Administração do Terceiro Setor da USP, precisamos voltar às origens dos problemas. Grande parte das questões socioambientais que vivemos foram criadas coletivamente, não existe um único responsável pela situação em que estamos. Se o problema é de todos, a solução também deve vir de uma atuação conjunta e articulada.

“Quando falamos do ecossistema de impacto, estamos trazendo o conceito de biologia, onde é realizado um trabalho conjunto, e todos são agentes interdependentes. O poder público faz parte deste ecossistema e tem a capacidade de escalar e ampliar o impacto de uma solução.” Graziella Comini

Mesmo entendendo o papel fundamental do Estado na solução das problemáticas socioambientais, sozinho ele não é capaz de solucionar todas as questões. Por outro lado, a filantropia e os negócios de impacto  atuam em pilares chaves para ajudar a minimizar muitas questões, mas isolados não dão conta de resolver todos os problemas existentes. 

“Temos que conectar os negócios de impacto ao poder público e pensar em como criar inovações e como essas inovações podem ser escaladas para atingir o maior número de pessoas possível”, comenta Graziella.

Quando se fala em papel do poder público na construção de uma sociedade mais justa, fala-se necessariamente em combate à desigualdade social, que, em última análise, está no centro de todos os problemas sociais existentes. Na visão de Lucas Ramalho, idealizador e coordenador da ENIMPACTO (Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto), esse é o papel fundamental e estratégico do Estado.

“A gestão pública tem como missão minimizar as desigualdades e os problemas que dela decorrem: violência, exclusão, miséria, fome, questões envolvendo saúde e educação. Não deveríamos aceitar viver em um sistema onde 1% da população detém a riqueza dos restante da humanidade inteira, isso não é sustentável.” Lucas Ramalho

Vamos nos concentrar no papel redistributivo do Estado, onde quem tem mais deveria pagar mais, na forma de impostos progressivos, taxação de grandes fortunas, tributar mais o patrimônio e menos o consumo. Esse é o caminho para corrigir a desigualdade. É claro que existem outros papéis importantes que o Estado deve assumir, como investimentos em saúde, educação, inclusão de populações menos privilegiadas, entre outros. 

Em última instância, cabe ao Estado resolver os problemas sociais e ambientais. “O grande problema é que essa conta não fecha, o custo de resolver esses problemas é muito mais alto do que os recursos que o Estado dispõe. Embora esses problemas sejam causados, em sua maioria, por um sistema que capitaliza os lucros e socializa os prejuízos, é preciso que outros parceiros entrem neste processo”, declara Lucas.

De acordo com Graziella, vivemos em um sistema capitalista que não teve uma regulação e que, embora tenha trazido algumas inovações, também fez muitos estragos. Hoje, temos uma inquietude para saber como redefinir estas bases. 

É aí que entra o trabalho que as empresas de impacto vêm realizando a fim de diminuir a demanda de recursos públicos nas políticas socioambientais. “Por exemplo, se temos um negócio como a Moradigna, que proporciona reformas de baixo custo para a base da pirâmide, e consequentemente melhora as condições muitas vezes insalubre de moradias não planejadas, menor seria a demanda por políticas de habitação, da demanda por hospitais públicos e melhor seria o desempenho escolar das crianças. Se tivéssemos mais empresas como a que recolhem o óleo usado das casas e fazem o correto descarte, menores seriam os custos públicos para limpar nossa água”, comenta Lucas.

A atuação dos negócios de impacto é muito benéfica para o país, porque reduz a pressão por políticas sociais, liberando recursos para aprimorar as próprias políticas. 

Por isso, é muito importante ter uma política específica para o setor de impacto. O Estado pode acionar alguns mecanismos que resultam em mais empresas ajudando a resolver problemas sociais e ambientais. “A ENIMPACTO tem potencial de se converter em um grande polo de irradiação de ideias, de valores, e sobretudo de instrumentos que promovam uma economia mais justa, equitativa e regenerativa. A ideia dos negócios de impacto é de somar esforços entre governos e filantropia, para ter espaços de atuação da iniciativa privada”, diz Lucas.

O poder regulatório é fundamental para garantir a inserção de alguns empreendimentos e o encaminhamento de recursos. Ao promover programas de aceleração, estão colaborando para o fomento de soluções e fazendo com que elas cheguem até o poder público, aproximando gestores públicos ao ecossistema de impacto.


“Os recursos não precisam vir necessariamente do Governo, podem ser articuladas fundações, institutos e investidores para promover esse capital semente que fomente esses negócios e desenvolva as soluções que irão atuar para minimizar esses problemas.” Graziella Cominni

O poder público tem e vai continuar tendo papel fundamental na construção de uma nova economia de impacto. É importante que o Estado redefina seu papel e viabilize o ambiente para que a economia de impacto possa florescer. E uma soma ganha-ganha para todos os envolvidos. Esse ecossistema de impacto incorpora o conceito de colaboração, parceria, sinergia e atuação conjunta de forma natural e orgânica. Todos os atores têm papéis importantes na construção de uma sociedade mais igualitária, mais justa e com as mesmas oportunidades para todos.

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