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UTI Conectada: inovação necessária

UTI Conectada: inovação necessária

Dra. Ho Yeh Li, médica coordenadora da UTI – Infectologia do HCFMUSP, e Prof. Carlos Carvalho, pneumologista do InCor, mostram benefícios, desafios e a abrangência que o projeto oferece

O monitoramento de pacientes internados é feito de forma presencial pelos profissionais da saúde, que seguem um protocolo com horários programados de muitas visitas. Com isso, cada vez que um profissional acessa um leito, é necessária a paramentação e desparamentação completa. 

Esse processo envolve uma série de riscos e custos: tanto o risco de infecção das equipes médicas quanto o risco de infecção cruzada, além dos custos envolvidos na contratação e utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), entre outros. Para auxiliar a mitigar esses riscos e reduzir custos, especialmente no contexto de pandemia da Covid-19, o IdeiaGov selecionou, através do edital de UTI Conectada, duas soluções inovadoras baseadas em tecnologias que permitem o monitoramento remoto de sinais vitais emitidos por equipamentos à beira-leito em unidades intensivas de tratamento (UTIs) e enfermarias: as plataformas Orchestra e Integrare, das empresas Carenet e Lifemed, respectivamente. 

Um grupo de trabalho com grandes profissionais de diferentes áreas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e outros órgãos e entidades do Estado foi montado para acompanhar os testes das soluções em ambiente real.

Acesso às informações dentro e fora do hospital

O Brasil permanece como um dos países mais afetados pela Covid-19 no mundo. Somos o terceiro país em número de casos, e o segundo em número de mortos em função da doença. Um dado específico e preocupante é o número de profissionais de saúde inseridos nesses índices.  

O projeto-piloto de UTI Conectada viabiliza o monitoramento de pacientes de forma remota, com potencial de contribuir para o bem-estar e proteção das equipes médicas e diminuir a exposição dos mesmos à contaminação por Covid-19 e outras doenças.

Em entrevista, o doutor e professor Carlos Carvalho, pneumologista do InCor, explica que o ambiente da UTI é bastante passível de germes, agentes infecciosos em vários locais, desde o ar até as superfícies, e por isso é tão importante manter as condições de higiene, tanto para o uso de paramentos que vão proteger o paciente e o profissional da saúde, como garantindo a manutenção de cuidados com as mãos e a limpeza do solo, ambiente, chão e superfícies. 

“Os quartos de UTI normalmente são isolados; nesses ambientes separados, ficam todos os equipamentos daquele quarto, então cada um tem que ter um ventilador, monitor, bombas de infusão – tudo para que não tenha a troca de equipamentos entre diferentes pacientes”, comenta.

De acordo com o professor,  é preciso prevenir para que o paciente não se exponha a outras doenças em um momento que já se encontra tão debilitado. “Na época em que eu era estudante de medicina, de hora em hora eu entrava na UTI para ver meu paciente, aferir a pressão, medir a temperatura, fazer eletrocardiograma, analisar a oxigenação e muito mais. Obviamente isso mudou; hoje tenho equipamentos que fazem isso, mas eu preciso estar lá toda hora, então cada vez que eu entro nesse ambiente para fazer alguma avaliação, estou expondo o paciente ao risco”, explica. 

A ideia com o projeto UTI Conectada é extrair automaticamente todos os dados dos equipamentos à beira-leito, até então observáveis somente dentro do leito, para que os dados fiquem disponíveis a partir de qualquer tela de computador. Dessa forma, o profissional da saúde responsável pode analisar da sala ao lado, de outro prédio ou de sua casa, no seu computador ou celular, e interagir com a equipe que está cuidando do paciente.

Tomada de decisão mais rápida fora da UTI

“Para os profissionais de saúde, o principal é permitir uma rápida tomada de decisão. Quando você percebe que tem alguma alteração nos parâmetros, consegue agir rapidamente, além de facilitar a detecção de alterações, mesmo sem estar na frente do leito”, conta Dra. Ho sobre um dos principais benefícios do projeto. 

“A partir do momento em que tenho uma UTI Conectada, posso proteger o médico, o especialista, os profissionais da saúde; a enfermeira e o fisioterapeuta não vão precisar entrar no local toda hora, por exemplo. Além disso, posso utilizar a sequência de informações do paciente, ter padrões de normalidade ou de aceitabilidade do parâmetro fisiológico”, detalha o professor Carlos. Ser mais resolutivo para fazer o diagnóstico precoce e ensinar o sistema a lhe dizer o que quer ser avisado também são alguns diferenciais. É possível otimizar a divisão de trabalho dentro da UTI, ter um médico plantonista que vai atender as intercorrências mais urgentes e contar com outros médicos especialistas que podem ser acionados com maior frequência em momentos estratégicos.

Do papel ao digital 

O acompanhamento e registro dos sinais vitais de pacientes internados são feitos de forma presencial pelos profissionais de saúde, que tomam nota dos dados, muitas vezes em papel. A utilização de softwares como os utilizados no projeto de UTI Conectada pode viabilizar a aferição dos sinais vitais de forma remota, inteligente e integrada.

“A grande vantagem, neste momento, será para a pesquisa. É comum encontrarmos anotações manuais em campos errados de alguns dados de sinais vitais. Sem dizer que automatizar o processo irá facilitar a integração dos profissionais recém-formados nas equipes médicas”, explica Dra. Ho Yeh Li.

Dr. Carlos reforça a importância da evolução do sistema. “Ainda estamos na fase do papel, os dados anotados e depois digitados numa planilha se tornarão algo automático graças a esse projeto; não vou ver mais o papel, vou ver o real estado do paciente naquele minuto, porque duas horas atrás ele podia não ter arritmia e agora, sim!”, conta. 

O professor ainda dá um exemplo: o projeto de TeleUTI do InCor iniciou há algumas semanas com uma intersecção com um hospital referência de Rondônia para casos graves de Covid-19. Na primeira reunião, explicaram que, de 13 pacientes gestantes internadas, 7 eram casos graves, e eles não sabiam o que fazer. “Em 15 dias montamos uma capacitação para as equipes aprenderem a cuidar de gestantes com Covid-19. E agora, passamos uma visita diária discutindo os casos graves – esse tipo de situação, por meio da conexão, é importante. Temos uma planilha com todos esses dados e, no futuro, poderemos ter tudo isso automático”, explica Prof. Carlos. 

Segundo ele, a interação entre a equipe médica, a equipe de saúde e as enfermeiras é fundamental para dar opinião, além da relação com os fisioterapeutas e até a equipe de informática, com os profissionais que estão extraindo esses dados. A junção disso é que vai trazer a revolução no atendimento. 

“Não dá mais pra ficar sem prontuário eletrônico. Não dá mais para fazer medicina de boa qualidade sem ter uma UTI Conectada; pode demorar seis meses ou mais, mas isso vai ter que acontecer, então que aconteça rápido. Nós estamos contribuindo com a nossa expertise para customizar essa ideia para a nossa população!”, conta o professor. 

Ele explica ainda que, se entrar em qualquer UTI no Brasil, a bomba é da empresa A, o monitor é da empresa B, o leito é da C, o ventilador é da D, e ele precisa fazer todo mundo conversar – e é exatamente o que as empresas selecionadas pelo IdeiaGov e o grupo de trabalho do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo estão fazendo, integrando soluções. A solução tem que ser customizada para o ambiente do país, pois a solução do exterior pode ser ótima, mas não se adapta à realidade daqui.

Acompanhamento e registro dos sinais vitais à distância: potenciais para atendimentos em áreas remotas

Emissão de relatórios customizáveis, avisos sobre mudanças repentinas em sinais vitais, uso de inteligência artificial e automatização para análise de dados são possibilidades que se abrem para o trabalho em UTIs e para pesquisas e estudos clínicos. Segundo a Dra. Ho, para os trabalhos nas UTIs, a grande vantagem será nas áreas remotas, em que há escassez de recursos humanos, inclusive na qualidade de informação. 

“Neste sentido, no apoio a distância, você consegue fazer dados muito mais fidedignos, do que depender da interpretação do médico que está no local para te fornecer dados – essa é a maior vantagem em relação à assistência. Agora, para pesquisa, para geração de conhecimentos, eu acho que talvez a gente consiga ajudar a desenvolver mais pra frente inteligência artificial, que consiga fazer com que o equipamento dê alertas sobre a situação de piora ou até de melhora do paciente”, explica. 

O Prof. Carlos reforça a importância em interagir com os profissionais que operam as máquinas: “Cabe a mim ensinar o que quero que eles saibam e que eles reconheçam e me informem. Eu vou ensinar as máquinas e as pessoas. Essa UTI Conectada é um primeiro passo nesse sentido, então nós vamos testar se a extração dessas informações chega para mim. Eu tenho que provar que isso é custo-efetivo, que melhora a qualidade; não adianta só imaginar que é bom, eu tenho que fazer esse projeto-piloto e mostrar que funciona, com números, com indicadores”. E a execução do projeto de UTI Conectada vai nos mostrar exatamente isso.

Olhando para a formação dos profissionais da área, ele acredita que, se as escolas de medicina não se adaptarem, vão parar no caminho. “Esse ano, por exemplo, já montamos uma disciplina de telemedicina, que é obrigatória para todos os residentes do HCFMUSP, e é optativa para os alunos. Se muitos aderirem, ela vai virar uma disciplina obrigatória na faculdade.” 

Dra. Ho complementa que é preciso que os recém-formados entendam que a inteligência artificial não exime a necessidade de presença física do profissional de saúde. “Infelizmente, a gente já entrou numa geração em que muitos profissionais analisam muito mais os dados de exames laboratoriais e sinais vitais que estão informatizados, do que os exames nos pacientes. Então, se não soubermos integrar isso, vamos entrar num cenário em que o contato com o paciente vai se tornar secundário”, explica. 

Os desafios da integração de uma UTI Conectada

Dentre os possíveis benefícios para os pacientes internados em uma UTI Conectada, pode-se destacar o acompanhamento contínuo dos sinais vitais e diminuição da exposição do paciente à contaminação cruzada. A Dra. Ho conta que o maior benefício é saber usar, conseguir integrar vários equipamentos e fazer o ajuste deles com um toque só. 

“Agora, para chegarmos lá, temos que entender eventualmente a interferência de uma ação na outra e, aí sim, compreender que o corpo humano é uma coisa só, e não um órgão – isso infelizmente está acontecendo atualmente na medicina. Quando chegarem esses equipamentos, esses dados, o risco disso piorar é muito maior”, explica. 

Para o Prof. Carlos, o desafio é contar com profissionais de tecnologia da informação e engenharias. É preciso misturar, e o desafio é juntar todas essas cabeças com as necessidades e dificuldades, e resolver e trabalhar em equipe para chegar às soluções. Trabalhar em conjunto, propor, testar soluções e implementá-las quando estiverem resolvidas é essencial, e é isso que é feito agora pelos responsáveis pelo projeto. 

Com a convergência de esforços do governo, academia e indústria para o início de implantação de soluções, com a proposta de constituir modelos viáveis de integração entre equipamentos em um contexto adverso, como hospitais públicos, os avanços em pesquisa, desenvolvimento e inovação neste setor ainda estão distantes, infelizmente, na opinião da Dra. Ho.

“Os hospitais públicos ainda têm equipamentos de informática muito obsoletos; o que estamos desenvolvendo, mesmo agora no HC, são poucos equipamentos que conseguem estar conectados. Então, acho que o primeiro passo é atualizar o parque de equipamentos dos hospitais públicos, e isso inclui sistemas de informática. Se não dermos o primeiro passo, não vamos avançar no básico”, conta. 

Já quando se fala da utilização de soluções de monitoramento remoto de sinais vitais emitidos por equipamentos à beira-leito, é necessário entender o impacto no treinamento das equipes e na distribuição e profissionais de saúde em UTIs e em enfermarias, saber que muitas vezes há déficit de equipe de intensivistas capacitados para apoiar leitos, especialmente em um contexto de pandemia.

Prof. Carlos explica que é fundamental ter essa capacitação, que vai obrigar os profissionais a subirem de nível. “Todo mundo terá que estar mais desenvolvido, a enfermeira terá que saber um pouco da medicina e da fisioterapia, o fisioterapeuta terá que saber dos remédios da parte cardíaca, o médico terá que entender qual o papel de cada um e gerenciar tudo isso – tudo visando a saúde do paciente. Você vai usar essa ferramenta, essa integração desses sinais, para harmonizar e agilizar tudo isso. O ambiente da UTI é muito rápido, de decisões rápidas”, explica. 

Sobre esse tópico, a Dra. Ho esclarece que, para o panorama atual, primeiro é necessário ajudar locais remotos, que têm poucas pessoas habilitadas para interpretar diversas condições – e esse vai ser um grande benefício. “Por exemplo, podemos estar em São Paulo e ajudar uma equipe médica, em que não há intensivista suficiente, a conduzir um paciente que está lá em Roraima, como no exemplo que o Prof. Carlos deu. Então, o projeto é fundamental para ajudar nessa assistência a distância”, defende. 

Por outro lado, para ela o recurso humano que ainda pede ajuda é o da equipe de enfermagem, que precisa ser muito bem treinada para estar atenta também quando o sistema alimentar de uma forma automática os dados. “Outra questão fundamental é a formação dos futuros profissionais, que serão beneficiados com projetos como este ao contarem com simulações aprimoradas”, conclui. 

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